Cerca de 70% da população com deficiência economicamente ativa está fora do mercado de trabalho no Brasil, um país com cerca de 18 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Os números assustadores, que resultam da pesquisa da PNAD Contínua do IBGE, reforçam a importância da inclusão PCD como prática do pilar S de uma agenda ESG corporativa.

Com o objetivo de enfatizar a importância de incluir essa parte da população no mundo corporativo, o Integridade ESG, em parceria com a Insight Lab, fez uma pesquisa minuciosa usando algoritmos e softwares próprios com o uso de IA para identificar as 50 empresas brasileiras de maior reputação em relação às ações para PCDs. Para chegar a esse resultado, foram mapeadas e analisadas 3.500 menções de 2019 a 2024.

O levantamento “50 empresas líderes em PCD – Companhias com ações de destaque para pessoas com deficiência também concluiu que os negócios que conseguem inserir a diversidade PCD em seus próprios modelos de negócios reforçam sua reputação e valorizam suas marcas, associando-as à inovação, especialmente em relação ao lançamento de produtos e serviços adaptados para o público PCD.

Inclusão produtiva fortalece as marcas

A pesquisa colocou luz sobre os temas que mais têm contribuído para fortalecer a reputação das marcas: anúncios de concursos e vagas de emprego para PCDs, programas de inclusão e diversidade, e lançamento de produtos e serviços adaptados para pessoas com deficiência, como serviços bancários e carros para pessoas com a mobilidade reduzida. 

A empresa líder do ranking, o Mercado Livre, investe fortemente em eventos presenciais e virtuais de emprego, como a Inclui PcD e o Feirão de Empregabilidade no CIC, além de parcerias com o Poder Público voltadas para a inclusão no mercado de trabalho, a exemplo do programa Redes para o Futuro. Já o Banco do Brasil se destacou pelo lançamento de serviços adaptados para clientes PCD, como o cartão BB Voz e a linha BB Crédito Acessibilidade, que facilita a compra de produtos e serviços de tecnologia assistiva. Em terceiro, a Petrobras combinou iniciativas internas com abertura de vagas, criando uma Política de Diversidade, Equidade e Inclusão, e anunciando recentemente um concurso público considerado inovador para a inclusão PCD, com 20% de reserva das vagas para esse público.

Diversidade do Banco do Brasil impacta fornecedores, clientes e funcionários

vice-presidente de Negócios de Governo e Sustentabilidade Empresarial do Banco do BrasilJosé Ricardo Sasseron, afirmou ao Integridade ESG que o posicionamento no ranking confirma os avanços reais da empresa.

“Sabemos que ainda temos uma longa jornada a percorrer e reconhecimentos dessa natureza nos trazem a certeza de que avançamos de forma consistente e perene. Somos extremamente gratas e gratos por isso! Cuidar de todas as pessoas e promover, principalmente, a inclusão daquelas pertencentes a grupos historicamente excluídos e minorizados, bem como a acessibilidade por meio de soluções e tecnologias assistivas, além de ser o papel social do banco que traz o nosso país no nome, é sustentabilidade na prática! As Pessoas com Deficiência compõem um dos seis marcadores sociais priorizados em nossa estratégia de atuação (além de raça/etnia, gênero, neurodivergência, gerações e LGBTQIAN+)”, afirmou.

O VP acrecentou que o BB tem a diversidade como um de seus pilares estratégicos, que impacta positivamente na relação com fornecedores, funcionários, clientes e toda a sociedade.

Petrobras reforça política com aumento de vagas, formaização de grupos e eventos

Em terceiro lugar no ranking, a Petrobras combinou iniciativas internas com abertura de vagas, criando uma Política de Diversidade, Equidade e Inclusão, e anunciando recentemente um concurso público considerado inovador para a inclusão PCD, com 20% de reserva das vagas para esse público.

gerente executiva de Recursos Humanos da PetrobrasLilian Soncin, revelou ao Integridade ESG que, especificamente para a temática PCD, devido ao aumento do percentual de reserva de vagas que a companhia decidiu direcionar para esse grupo, o número de pessoas com deficiência no quadro de pessoal efetivo aumentou 50% em apenas um ano.

“Nós constituímos a Comissão de Acessibilidade e Inclusão da Petrobras para atuar como fórum técnico propositivo em relação à acessibilidade e inclusão, revisando toda a jornada do(a) empregado(a) com deficiência e neurodivergência para torná-la mais acessível e inclusiva, promovendo discussões, propondo ações, orientando e acompanhando em nível estratégico, tático e operacional as iniciativas de acessibilidade e inclusão. Também atualizamos as orientações do nosso Programa de Abordagem à Pessoa com Deficiência e/ou Neurodivergência que contribui para que tenhamos uma gestão inclusiva de pessoas com deficiência e/ou neurodivergência”, explicou.

Além disso, a estatal formalizou os grupos de pessoas com deficiência e pessoas neurodivergentes.

“Esses grupos conectam pessoas com características identitárias semelhantes ou vivências afins para que se unam, se identifiquem e se fortaleçam, podendo fomentar a agenda corporativa de diversidade. Também temos aproveitado as datas relacionadas à temática para realizarmos lives, palestras ou rodas de conversa. O mês de setembro, por exemplo, tem sido focado no tema em virtude do Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência (21/09). Em 2024, realizamos diversas ações promovendo a reflexão sobre o cenário atual e as perspectivas futuras relacionadas às principais pautas de luta da pessoa com deficiência. Nossa campanha interna contou com a participação de empregados com deficiência e com talkshow com atletas paralímpicos do Time Petrobras”, relatou.

Em quarto lugar no ranking da reputação PCD, o Sicoob (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil) tem investido no financiamento de com projetos sociais voltados para a inclusão de pessoas com deficiência, além de promover eventos presenciais, como a Corrida Sicoob Engecred.

A indústria siderúrgica mostra sua força através da ArcelorMittal, que aparece em quinto lugar. A empresa tem divulgado a criação do Programa de Diversidade e Inclusão, além de outras iniciativas, como o grupo de afinidade para as pessoas com deficiência que busca promover integridade e acessibilidade para que todos os colaboradores possam ser tratados com equidade.

Metodologia inclui IA, clusters de termos e análise de ponderação

A pesquisa elaborada pelo Integridade ESG, em colaboração com o Insight Lab, analisou os dados coletados com ferramentas de Inteligência Artificial, produzindo clusters de palavras que identificam assuntos relacionados às Pessoas com Deficiência (PCD) e ações corporativas relacionadas a esse público. Houve normalização dos dados, reduzindo a dispersão e minimizando os outliers identificados por especialistas ESG. O estudo aplicou fórmula algébrica a fim de mensurar cada resultado levantado, usando sistema de ponderação da relevância das menções, com base na fonte da informação.

Especialistas interpretam resultados da pesquisa

Para Ana Ulysséa, psicóloga e sócia da consultoria especializada em diversidade corporativa FourAll, a pesquisa comprova que as companhias trabalham a própria marca tanto para dentro quanto para forma quando investem na inclusão PCD, contribuindo para melhorar a sociedade.

“Sabemos que ainda existe uma percepção sobre pessoas com deficiência que ainda as associam a uma menor eficiência ocupacional. Por isso, a empregabilidade ainda é muito baixa. Mas não adianta termos só as vagas afirmativas, precisamos avançar no encarreiramento, quebrando vieses da organização. Existem barreiras de entrada, mas elas também existem contra a progressão salarial e o aprimoramento de carreira. Precisamos de programas específicos de desenvolvimento e monitoramento de carreira”, conclui a especialista em gênero e atuante em educação e gestão de DEIP.

Nathalia Amarante, coordenadora de projetos do Instituto Novo Ser e mestre em Direito da Pessoa com Deficiência pela Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, acredita que o resultado da pesquisa conduzida pelo Insight Lab reflete a centralidade do mercado de trabalho na inclusão social e econômica das pessoas com deficiência.

“Embora a Lei de Cotas (8.213/1991) já tenha 34 anos, a empregabilidade ainda é um desafio crítico, indicando que muitas empresas começam a cumprir os requisitos legais ou a reconhecer o impacto social e reputacional de adotar práticas inclusivas. Ademais, algumas experiências revelam que a inclusão se resume ao cumprimento da cota legal. E o destaque para vagas de emprego e concursos aponta que a inclusão no trabalho vai além de um simples ato legal ou administrativo; é percebida como uma oportunidade de mudar vidas e de reforçar a responsabilidade social corporativa. No Brasil, a baixa representatividade de PCDs no mercado formal de trabalho evidencia que a temática ainda precisa de atenção contínua para gerar resultados concretos”, avalia.

Agenda resiste à tendência anti-diversidade vinda dos EUA

Para Ana Ulysséa, da FourAll, a análise também indica que a inclusão PCD deverá continuar avançando no país apesar da onda anti-woke vinda dos Estados Unidos.

“Em função do nosso vasto arcabouço de leis, essa agenda não tende a diminuir ou ser impactada de forma avassaladora pela polarização e pela ideia de que a inclusão social é algo de esquerda”, acredita, acrescentado que a educação de adultos promove uma transformação cultural para favorecer a conscientização a respeito da falta de acesso a direitos básicos em função de marcadores identitários.

Por sua vez, Nathalia acredita que a tendência anti-woke internacional pode influenciar o discurso brasileiro, mas também enxerga que o fortalecimento reputacional por meio de ações inclusivas reflete uma demanda crescente dos consumidores brasileiros por marcas que promovem valores sociais e diversidade.

“Enquanto a onda anti-DEI e anti-woke nos EUA tem raízes culturais e políticas específicas, no Brasil, a inclusão de PCDs ainda é vista como uma necessidade concreta em função das lacunas históricas. Além disso, legislações como a Lei Brasileira de Inclusão (LBI) mantêm o tema como pauta obrigatória. O público brasileiro, especialmente os mais jovens, tende a valorizar marcas alinhadas a causas sociais, o que incentiva as empresas a continuarem investindo em comunicação inclusiva. Mas é fundamental que essas ações não sejam apenas estratégicas, mas genuínas, para evitar o risco de backlash ou acusações de greenwashing social”, pondera

Acesse gratuitamente o relatório 50 empresas líderes em PCD.