Avanço dos industrializados nas prateleiras é preocupante e exige mudanças, alerta professor e referência iternacional em epidemiologia nutricional
*Por Nadja Cortes
Associados a piores condições de saúde mental, maior risco de doenças crônicas e mortalidade, os ultraprocessados já são maioria entre os produtos alimentícios embalados lançados no Brasil.
Levantamento aponta que apenas 18,4% dos novos alimentos e bebidas comercializados nos últimos quatro anos podem ser classificados como in natura ou minimamente processados, enquanto os altamente industrializados chegam a 62%.
Os dados constam no relatório do projeto “Monitoramento da rotulagem de alimentos no Brasil”, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e Universidade de São Paulo (USP). Para a análise, foram avaliados 39 mil itens disponibilizados entre novembro de 2020 e novembro de 2024.
O aumento de ultraprocessados nas prateleiras e, por consequência, no padrão alimentar dos brasileiros, preocupa especialistas e sinaliza a urgência de políticas públicas a favor da alimentação saudável. Mais do que isso, aponta a necessidade de transparência regulatória e de ferramentas que favoreçam o acesso à informação, de forma que os consumidores possam conhecer os riscos à saúde e fazer escolhas conscientes.
Malefícios individuais
Mais de mil evidências publicadas tratam dos malefícios gerados pelo consumo desses alimentos. Em uma revisão de 45 estudos sobre hábitos alimentares e saúde, publicada no The British Medical Journal, pesquisadores descobriram que o consumo desses alimentos está relacionado a 32 doenças, como câncer, diabetes tipo 2, problemas gastrointestinais e cardiovasculares, obesidade, ansiedade, depressão e transtornos mentais simples.
Apesar do alerta, o estilo de vida contemporâneo favorece decisões ruins na alimentação. Entre os fatores que mais influenciam estão a facilidade atrelada a este tipo de alimento (que pode consumido de forma rápida, em qualquer lugar), o custo menor quando comparado a itens saudáveis (como os orgânicos) e o forte apelo publicitário da indústria, muitas vezes considerado abusivo e direcionado a crianças e adolescentes. Impacto à saúde pública.
Além das consequências individuais, o elevado consumo de ultraprocessados têm repercussões que afetam o coletivo. A maior prevalência de doenças aumenta os custos e a demanda por serviços de saúde pública, o que incluí internações, medicamentos e tratamentos. Pesquisas apontam que parte dos gastos hospitalares e do volume de mortes prematuras poderia ser evitada a partir da redução desses produtos.
Referência internacional em epidemiologia nutricional, o professor emérito da FSP/USP, Carlos Monteiro, afirma que a alteração nos padrões alimentares tradicionais desestimula o preparo caseiro, amplia a dependência de produtos industriais e a desigualdade nutricional,uma vez que populações de menor renda estão mais expostas. Os efeitos desta nova cultura alcançam gerações com mais doenças precoces e redução da qualidade de vida.
Saídas possíveis
Em aula do curso de Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas da USP, o especialista indicou três medidas prioritárias para reverter o quadro: maior disseminação de informações sobre o tema; implementação de uma política fiscal que facilite o consumo de produtos naturais e desestimule a compra de ultraprocessados; e regulação de publicidade, com ações efetivas.
“Não é só criar dificuldade para os ultraprocessados. É gerar facilidade para o consumo de alimentos minimamente processados. Nos mercados, eles sempre estão menos visíveis, onde as pessoas quase não passam. Temos que incentivar a compra de alimentos frescos. Tirar da vista das crianças os industrializados, que são posicionados na altura delas”.
Ele reforça que no Brasil 20% das calorias consumidas são provenientes desses produtos. Autor da classificação NOVA de alimentos, o professor diz que a mobilização da sociedade civil é essencial para uma mudança de cenário. Isso porque as iniciativas que buscam frear o aumento de ultraprocessados são diretamente prejudicadas pelo lobby da indústria e suas estratégias de influência sobre políticas públicas e comportamentos alimentares, principalmente no que diz respeito à publicidade e ao uso de informações incorretas.
Fonte de informação
O Guia Alimentar disponibilizado pelo Ministério da Saúde é referência mundial e apresenta recomendações práticas para o dia a dia. O documento explica conceitos e contribui para a autonomia das escolhas alimentares e o cumprimento do direito humano à alimentação adequada.
*Trabalho de conclusão do curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, da USP, inspirado na aula “Informação nutricional, escolhas alimentares e saúde pública”, ministrada por Carlos Monteiro, profº emérito da FSP/USP e fundador do Nupens/USP
