Especialista explica por que a correria das festas pode intensificar crises e como controlar a doença
Mudanças na rotina, pressão por metas e prazos apertados no trabalho, aumento dos compromissos sociais, noites mal dormidas, alimentação irregular e expectativas elevadas compõem um cenário típico de fim de ano. Para quem sofre de enxaqueca, doença de origem hereditária e sem cura, esse período pode ser ainda mais desafiador. O estresse, intensificado pelas demandas da temporada, atua como um importante desencadeador de crises e pode acabar comprometendo os planos para as festas.
A médica neurologista Thais Villa, especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca, explica que o estresse pode ser um gatilho ou piorar as crises. “Para a pessoa com enxaqueca, que já tem um cérebro mais excitado, passar por situações de aflição, esgotamento e preocupações pode piorar um quadro que ela já vive, deixando o cérebro ainda mais em sofrimento e, com isso, mais sintomático”.
Além da dor de cabeça, um dos sintomas mais conhecidos da enxaqueca, a doença também pode provocar fotofobia (sensibilidade à luz, especialmente as brilhantes); fonofobia (sensibilidade ao som, particularmente altos); osmofobia (sensibilidade ao cheiro); aura (alterações na visão); dormência; formigamento; fraqueza de um lado do corpo; dores no pescoço e ombros; sensação de tontura ou vertigem; zumbidos no ouvido; náusea com ou sem vômitos; pálpebras inchadas e olhos lacrimejantes; obstrução nasal ou nariz escorrendo; dor facial; bruxismo; taquicardia; pressão alta ou baixa; mal estar e cansaço; dificuldade de concentração e memória; e até alterações de humor.
“Quando estamos sob tensão, nosso corpo libera hormônios como o cortisol e a adrenalina, que provocam alterações no sistema nervoso central e podem desencadear ou intensificar uma crise. Para a sensação de alívio da dor, infelizmente, o uso indiscriminado de analgésicos e anti-inflamatórios contribui para o chamado ‘efeito rebote’, intensificando os sintomas e cronificando a doença”, alerta a especialista.
Segundo Thais Villa, o ciclo vicioso de estresse, sono ruim, má alimentação e uso excessivo de medicamentos faz com que a enxaqueca se torne cada vez mais presente e difícil de controlar, podendo resultar em quadros de depressão, déficit de atenção, e, em situações mais graves, risco aumentado de AVC e infarto.
“A enxaqueca tem um custo físico altíssimo: dor de cabeça latejante que não passa, náusea que torna impossível a alimentação, tontura que transforma tarefas simples em grandes desafios, luminosidade e som que torturam a pessoa, confusão e lentidão cerebral, palavras que travam no meio da fala, rigidez no pescoço e corpo sobrecarregado pela fadiga, tudo isso contribui para aumentar ainda mais os quadros de estresse e compromete a saúde como um todo”, destaca Villa.
Diagnóstico e tratamento
Apesar da gravidade da doença, ainda há muito desconhecimento sobre o diagnóstico correto. De acordo com a neurologista, é comum que a enxaqueca seja confundida com sinusite, tensão muscular ou até mesmo TDAH, o que atrasa o início de um tratamento adequado, prolongando o sofrimento. O diagnóstico preciso, feito por neurologistas especializados, é fundamental para romper esse problema recorrente.
“O tratamento ideal não se limita a prescrever medicamentos pontuais. A enxaqueca exige uma abordagem multidisciplinar e integrada. O Tratamento 360º é uma estratégia multidisciplinar que considera o paciente com todas as suas particularidades. Recursos modernos, como o uso de toxina botulínica (botox) e anticorpos monoclonais anti-CGRP, têm se mostrado altamente eficazes no controle da doença”, pontua a neurologista.
Para entrevista:
Dra Thaís Villa (CRM 110217) – Médica neurologista especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca. Doutorado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Pós-Doutorado pela Universidade da Califórnia (UCLA) nos Estados Unidos. Idealizadora do Headache Center Brasil, clínica multiprofissional pioneira e única no país no diagnóstico e tratamento integrado das dores de cabeça e da enxaqueca. Professora de Neurologia e Chefe do Setor de Cefaleias na UNIFESP (2015 a 2022). Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia. Membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Membro do Conselho Consultivo do Comitê de Cefaleias na Infância e Adolescência da International Headache Society. Atua exclusivamente na pesquisa e atendimento de pacientes com dor de cabeça, no diagnóstico e tratamento da enxaqueca, enxaqueca crônica, cefaleia em salvas e outras cefaleias em adultos e crianças. Palestrante convidada em congressos nacionais e internacionais.
Site do Headache Center Brasil: www.headachecenterbrasil.com.br
Instagram: @headache_center_brasil
