Países da União Europeia não formaram a maioria dos votos para prorrogar a autorização de uso do herbicida glifosato, cuja vigência vence no fim deste ano.
As nações do bloco têm dúvidas sobre manter a aplicação do químico nas lavouras até dezembro de 2033. Uma parte defende que o glifosato é seguro e essencial para o controle de plantas invasoras na atividade agrícola. A outra alega que o produto faz mal à biodiversidade e à saúde humana.
O fato de não haver consenso até o momento levantou o questionamento, por parte do agronegócio global, sobre a disponibilidade do herbicida mais utilizado no mundo para a próxima década.
Por causa da relevância do setor agropecuário, o Brasil é um dos países que mais utiliza o produto químico. Por isso, Eduardo Leão, presidente da CropLife Brasil, afirma que a dúvida que paira sobre a prorrogação do glifosato pode ter consequência direta à agricultura nacional.
Neste sentido, ele defende que o debate considere as especificidades de cada região, sendo o Brasil um país tropical, com mais incidência de pragas e doenças e sem o frio dos países temperados para quebrar este ciclo.
“O que nos preocupa é quando se deixa de colocar a ciência como base para essas decisões. A gente defende que continuem as análises científicas, rigorosas, dos impactos dos produtos para a saúde e o meio ambiente, mas adaptado às nossas condições. O Brasil precisa continuar trabalhando com seus modelos de regulação”, afirma Leão.
Se não o glifosato, qual herbicida?
Esta utilização quase unânime para a produção agrícola global tem uma explicação, segundo Caio Carbonari, vice-diretor de Faculdade de Ciências Agronômicas da UNESP. “Hoje não existe no mercado um substituto direto com eficácia e índices seguros de toxicidade como o glifosato. Então, a questão é qual a alternativa, se o glifosato ficar proibido?”, diz.
Ele explica que, para fazer agricultura, produtores rurais precisam eliminar a vegetação espontânea – chamada comumente de planta daninha – e deixar o solo dedicado apenas à cultura principal. O glifosato pode controlar mais de 150 tipos de plantas daninhas, em diversas culturas ao redor do mundo.
A questão é que aplicá-lo de forma incorreta pode causar a mortandade de espécies que estão no entorno, podendo provocar o desequilíbrio do ecossistema local. Por isso, a discussão, segundo o vice-diretor da UNESP, vai além de usar ou não o glifosato, mas como e sob quais condições.
Aqui no Brasil, em 2019, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu manter o uso do glifosato, sob determinadas restrições. O órgão estabelece que os agricultores devem utilizar tecnologias de aplicação que reduzam em 50% a deriva – dispersão das gotas do herbicida para fora da lavoura – para doses acima 1,8 mil gramas por hectare.
Já para doses acima de 3,7 mil gramas por hectare, em regiões próximas a moradias ou escola, a Anvisa exige uma margem de segurança de cinco metros até a parte externa da lavoura, além da redução da deriva em 50%.
“O produto foi avaliado com base nas recomendações agronômicas adequadas de uso, tanto do ponto de vista do aplicador, da segurança ambiental e da própria cultura que é alvo. A dose está relacionada à aplicação correta, ao uso de equipamento de proteção e tudo isso é regulamentado sob determinadas condições. Não tem outro herbicida que substitua o glifosato atualmente, por isso usar de forma correta é importante”, afirma.
Glifosato: aliado do plantio direto?
Bastante contrastante com o modelo europeu, a agricultura brasileira assume como premissa a técnica do plantio direto, em que o solo permanece coberto com palhada, folhas e outros materiais orgânicos para manter os nutrientes e o equilíbrio térmico do solo. Segundo Carlos Carbonari, isso é permitido exatamente porque o glifosato consegue atuar na eliminação apenas das plantas invasoras sem ter que arar a terra, como era antigamente.
Um estudo da CropLife Europa mostra reduções de margem bruta de 10% a 30% para culturas como trigo, colza e ervilha no Reino Unido, e de 4% a 37% para trigo, cevada e batata na França. Eduardo Leão, representante da entidade no Brasil, diz não ter conhecimento sobre dados que estimem esta possível perda econômica, caso o produto deixe de ser permitido aqui.
A multinacional alemã está “confiante” de que a aprovação do glifosato seja renovada na votação a ser realizada pela comissão da União Europeia na primeira quinzena de novembro. “A renovação da aprovação de glifosato continuaria a fornecer uma importante tecnologia para o manejo integrado de plantas daninhas para os agricultores e outros usuários da Europa”, afirma a Bayer por meio de nota.
*Fonte: Portal Exame
