A recente ordem executiva assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que reduz retroativamente tarifas sobre produtos agrícolas, revela mais do que uma simples medida de ajuste econômico. Ela escancara os desafios enfrentados pelo Brasil na arena comercial internacional e os limites da atual estratégia diplomática do país.
A decisão de Trump visa aliviar a pressão inflacionária sobre produtos como carne bovina, tomates, café e bananas — itens que registraram aumentos expressivos de preços desde o início de seu mandato. A justificativa oficial aponta para a necessidade de responder à insatisfação popular com a economia, evidenciada nas recentes eleições estaduais, onde candidatos democratas ganharam terreno.
Contudo, apesar de o Brasil ser um dos principais fornecedores desses produtos — especialmente café e carne —, a ordem executiva não reverteu a sobretaxa de 40% imposta em julho. Assim, os produtos brasileiros continuam enfrentando uma tarifa total de 50%, o que os torna menos competitivos no mercado norte-americano.
A reação das entidades brasileiras foi marcada por um misto de cautela e frustração. A Abiec viu na medida um sinal de possível reabertura do diálogo técnico, mas evitou projeções otimistas. Já a Abrafrutas destacou que, mesmo com a redução parcial, o impacto sobre as exportações — como a queda de 70% nas vendas de uva — permanece severo.
O Cecafé, por sua vez, lembrou que o Brasil enfrenta uma dupla penalização: a tarifa base de 10% e a adicional de 40% vinculada ao artigo 301, que trata de práticas comerciais consideradas desleais. A entidade aguarda esclarecimentos sobre o alcance real da medida e mantém diálogo com seus pares americanos.
A exclusão do Brasil da lista de beneficiários da redução tarifária levanta questionamentos sobre a eficácia da diplomacia comercial brasileira. Mesmo após encontros de alto nível, como o do chanceler Mauro Vieira com o secretário de Estado Marco Rubio, a decisão já estava tomada — sinalizando que o canal diplomático teve pouca ou nenhuma influência no resultado.
Além disso, a medida evidencia a natureza volátil da política comercial dos EUA sob Trump, marcada por decisões unilaterais e imprevisíveis. Para o Brasil, isso reforça a necessidade de diversificar mercados e fortalecer alianças multilaterais, reduzindo a dependência de um único parceiro.
A ordem executiva de Trump é, acima de tudo, uma resposta interna a pressões econômicas e eleitorais. Para o Brasil, ela representa um alerta: a retórica de parceria estratégica não se traduz, necessariamente, em benefícios comerciais concretos. O episódio reforça a urgência de uma política externa mais assertiva, técnica e menos reativa, capaz de proteger os interesses do agronegócio nacional em um cenário global cada vez mais competitivo e instável.
