A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) avalia aproveitar cerca de 19 GW em contratos hidrelétricos com vencimento ao longo da próxima década para incorporar soluções de armazenamento e usinas reversíveis, em uma tentativa de aumentar a eficiência de aumentar a eficiência de reservatórios já existentes e responder ao avanço das renováveis intermitentes no sistema elétrico brasileiro.
“Não simplesmente entregar um contrato novo para explorar outro ativo, mas explorar mais daquele ativo, de uma forma talvez
economicamente mais interessante”, afirmou.
“O contrato de concessão também não revela informação se tem possibilidade de utilizar esse contrato. Uma das atividades que a gente está levando para o ministério é justamente avaliar os 19 GW que têm contratos a vencer nos próximos dez anos”, disse Prado. Segundo ele, o objetivo é entender quais empreendimentos podem incorporar serviços adicionais de armazenamento sem necessidade de desenvolver novas estruturas do zero.
Armazenamento pode chegar a 50 GW, mas setor ainda não sabe quanto contratar de flexibilidade
A avaliação ocorre em meio à pressão crescente sobre as hidrelétricas convencionais, que passaram a operar em um regime de “liga e desliga” diário para acomodar as oscilações da geração solar e eólica.Durante o painel, o presidente da EPE afirmou que o setor não pode mais adiar a revisão estrutural do modelo elétrico.
“Quanto mais a gente procrastinar a necessidade de rever o desenho do setor elétrico como um todo, mais a gente acaba fazendo
extensões e analogias de entendimento e só vai acelerando essas assimetrias e essas alocações de custo”, disse Thiago Prado.
Segundo a presidente da Abrage, Marisete Pereira, que também participou do painel, as hidrelétricas hoje prestam serviços essenciais ao sistema, como flexibilidade, estabilidade, controle de frequência e resposta rápida, mas sem remuneração adequada.“A concepção daqueles equipamentos foi feita para operar de maneira constante e hoje elas estão nesse ‘liga e desliga’ diariamente. Isso tem provocado desgaste na vida útil dos equipamentos e um custo para os geradores que hoje também não é reconhecido”, afirmou.
A avaliação da Abrage é que as usinas reversíveis podem ajudar justamente a reorganizar essa lógica, criando mecanismos mais eficientes para armazenamento de energia e prestação de serviços ancilares ao sistema.
Para a associação, a tecnologia recoloca as hidrelétricas no centro da discussão energética brasileira em um momento de rápida expansão das renováveis intermitentes.
Segundo Thiago Prado, projetos associados a reservatórios já existentes podem apresentar vantagens importantes em relação a projetos totalmente novos, especialmente em custos de implantação, licenciamento ambiental e prazo de desenvolvimento.
Hoje, a EPE já identifica aproximadamente 38 GW em áreas potencialmente aptas para armazenamento hidráulico, muitas delas em regiões já antropizadas e próximas de estruturas hidráulicas existentes.
Além dos projetos em circuito fechado, o planejamento energético também avalia soluções chamadas de “semiabertas”, que aproveitam reservatórios já existentes para reduzir custos e acelerar implantação.
Segundo Prado, esse modelo pode permitir um melhor aproveitamento da infraestrutura hidrelétrica já disponível no país, além de ampliar a capacidade de prestação de serviços sistêmicos ao SIN.
Setor cobra avanço regulatório
Apesar do avanço dos estudos técnicos, agentes do setor avaliam que o principal gargalo segue sendo regulatório.
Prado afirmou que ainda é preciso definir questões como modelo de contratação, remuneração, tempo de armazenamento, localização ideal e prazos de implantação. Segundo ele, insistir apenas em buscar um desenho “ótimo” pode atrasar excessivamente a entrada da tecnologia.“O que eu acredito que seja mais prático e viável num primeiro momento seria vir realmente um leilão de reserva de capacidade”, disse. O presidente da EPE também alertou para os riscos de cronogramas excessivamente otimistas. Segundo ele, atrasos em projetos de potência criam “buracos” no planejamento do sistema e podem elevar custos futuros.
Representantes da indústria presentes no painel afirmaram que as hidrelétricas brasileiras vêm sustentando a expansão renovável em um modelo operacional cada vez mais extremo, com rampas de carga crescentes e maior necessidade de flexibilidade sistêmica. Nesse cenário, as reversíveis aparecem como alternativa estrutural para armazenamento.
