Aos 82 anos, Milton Nascimento foi diagnosticado com demência por corpos de Lewy, condição que combina sintomas semelhantes ao Alzheimer e ao Parkinson. A confirmação veio após viagem recente com o filho Augusto, que relatou sinais de perda de memória e piora cognitiva do cantor.

Milton Nascimento, 82 anos, recebeu o diagnóstico de demência por corpos de Lewy (DCL). A informação é de seu filho, o empresário Augusto Nascimento, que em entrevista à Revista Piauí, descreveu uma viagem ao lado do pai depois da qual o cantor teria recebido o diagnóstico.

Depois de um primeiro semestre atarefado em 2025, em que Milton foi homenageado pela escola de samba Portela e viu ser lançado um documentário sobre sua última turnê, Augusto afirma que o artista passava a viver episódios de falta de memória.

Segundo ele, Milton costumava passar horas contando diferentes histórias de sua vida, mas passava a se repetir em muitas delas em questão de poucos minutos. Em março, em entrevista ao Jornal Nacional, Augusto já havia revelado que o pai lidava com a doença de Parkinson há dois anos.

Em abril, o clínico geral do cantor, Weverton Siqueira, começou a testar Milton para verificar domínios cognitivos como a atenção, a capacidade de cálculo, a orientação pelo espaço e a fala. Foi a primeira vez em dez anos, nas palavras de Augusto, que o médico se assustou com o estado do músico.

Segundo o filho, foi ali que lhe ocorreu a ideia de viajar com o pai. “Quando vi que o meu pai apresentava uma piora brusca no quadro cognitivo, perguntei ao médico se seria uma loucura fazer uma viagem de motorhome com ele pelos Estados Unidos”, disse Augusto ao veículo.

Siqueira aprovou a ideia e em 7 de maio Milton e Augusto embarcaram para Dallas, no Texas. A viagem então seguiu para Phoenix, no Arizona, onde os dois alugaram um motorhome. Eles permaneciam no veículo durante o dia e dormiam em Airbnbs pela noite. Foram 4 mil km percorridos em 17 dias. “Meu pai contava para todo mundo como se tivesse sido a melhor coisa da vida dele”, afirmou Augusto à revista.

Poucas semanas depois da viagem, Milton recebeu o novo diagnóstico de seu médico. A demência por corpos de Lewy (DCL) é o terceiro tipo mais comum de demência e resulta da degeneração e morte de células nervosas no cérebro. A deterioração dessas células acontece quando as mesmas apresentam um depósito anormal de proteínas conhecidas como “corpos de Lewy”.

A DCL se manifesta por sintomas próximas às doenças de Alzheimer e de Parkinson.

O nome Lewy se refere a depósitos anormais de proteínas chamadas alfa-sinucleínas dentro dos neurônios. Esses aglomerados dificultam o funcionamento das células nervosas e são considerados a principal marca patológica de demências, como o Parkinson, por exemplo.

Essas proteínas alteram a comunicação entre os neurônios e afetam áreas ligadas à memória, ao pensamento, ao movimento e ao comportamento. Ou seja, comprometem funções cognitivas, motoras e comportamentais.

 DCL é a segunda forma de demência neurodegenerativa mais comum, depois do Alzheimer. Estima-se que a demência por corpos de Lewy esteja presente em cerca de 10% dos casos de demência. Existe também a demência vascular, que é a segunda depois do Alzheimer, mas esta não é considerada uma demência neurodegenerativa.

Parkinson e demência com corpos de Lewy

Ao analisar o cérebro do paciente, a doença de Parkinson e a demência com corpos de Lewy levam às mesmas características patológicas, explica a neurologista e pesquisadora do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e do Hospital Israelita Albert Einstein Jacy Parmera. Mas há particularidades de cada uma delas:

  • doença de Parkinson: a demência ocorre depois dos achados motores e afeta mais a memória. É mais comum aparecer na faixa dos 65 anos, mas não é exclusiva do idoso, podendo atingir pessoas a partir dos 40 anos.
  • demência por corpos de Lewy: primeiro aparece o quadro cognitivo e depois surgem as alterações motoras. Não afeta tanto a memória, mas sim as disfunções executivas. É mais senil, sendo mais comum a partir dos 70 anos. O paciente passa a ter mais desatenção, diminuição da velocidade de processamento, dificuldade da resolução de problemas e parkinsonismo associado (tremores). Outras características clínicas muito sugestivas são alucinações visuais, flutuações cognitivas e alteração do sono, chamada transtorno comportamental do sono REM. O paciente pode estar eventualmente muito bem e eventualmente muito mal.