O assassinato de Rafael Garcia Pedroso, em Frutal (MG), reacendeu uma história marcada por dor e trauma. Marcos Antônio da Silva Neto, hoje com 19 anos, é apontado como o principal suspeito de ter disparado contra o homem que, dez anos antes, matou sua mãe, Glauciane Cipriano, com cerca de vinte facadas. O caso, além de chocar pela brutalidade, expõe as cicatrizes emocionais que um crime de feminicídio pode deixar em uma criança que o presencia.

Em 2016, Marcos tinha apenas nove anos quando viu a mãe ser morta pelo companheiro. Desde então, sua vida foi atravessada por um trauma profundo, que não se encerrou com a condenação do agressor. A infância interrompida pela violência, o luto sem elaboração adequada e a ausência de suporte psicológico consistente parecem ter se transformado em uma ferida aberta. A cada lembrança, o menino crescia carregando não apenas a dor da perda, mas também a imagem do crime que marcou sua família.

Dez anos depois, a morte de Rafael Garcia Pedroso, alvejado com cinco tiros, é investigada como vingança. Para os investigadores, a hipótese de que Marcos tenha buscado justiça com as próprias mãos é forte. Mas, para além da esfera policial, o episódio revela como o trauma pode moldar trajetórias. A criança que testemunhou a violência tornou-se um jovem adulto que, possivelmente, não conseguiu se desvincular da memória de sangue e da sensação de impunidade.

Especialistas apontam que casos como este evidenciam a necessidade urgente de políticas públicas voltadas ao acompanhamento psicológico de filhos de vítimas de feminicídio. O impacto não se limita ao momento do crime: ele reverbera por anos, podendo gerar comportamentos autodestrutivos ou violentos. Marcos, ao que tudo indica, cresceu sem o suporte necessário para ressignificar sua dor. O resultado foi a repetição da violência, agora em suas próprias mãos.

A tragédia de Glauciane Cipriano e de seu filho mostra que o feminicídio não termina com a morte da vítima ou com a prisão do agressor. Ele continua reverberando na vida dos sobreviventes, exigindo atenção e cuidado. Sem isso, o trauma pode se transformar em vingança, perpetuando a lógica da violência. A história de Marcos não é apenas sobre um crime, mas sobre uma sociedade que ainda não aprendeu a proteger os filhos das vítimas de feminicídio do peso insuportável de suas memórias.

Os números nacionais reforçam essa análise. Em 2023, 692 crianças ou adolescentes perderam suas mães para o feminicídio, o que corresponde a quase um quarto dos casos registrados no país. Em 2025, o Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina apontou que quatro crianças ficaram órfãs por dia em decorrência desses crimes. Em muitos casos, os assassinatos acontecem dentro de casa, diante dos filhos, ampliando o trauma e a vulnerabilidade.

Especialistas em saúde mental alertam que o trauma infantil pode se manifestar em comportamentos violentos, autodestrutivos ou em dificuldades de relacionamento. No caso de Marcos, a ausência de acompanhamento psicológico consistente pode ter contribuído para que a dor se transformasse em ação. O resultado é a repetição da violência, perpetuando o mesmo padrão que ceifou a vida de sua mãe.